Mostrando postagens com marcador Filosofia Medieval. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Filosofia Medieval. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A Cidade de Deus - Agostinho

Dois amores erigiram duas cidades, Babilônia e Jerusalém : aquela é o amor de si até ao desprezo de Deus ; esta, o amor de Deus até ao desprezo de si”.
Santo Agostinho, A Cidade de Deus,
2, L. XIV, XXVII





 “Dois amores fazem duas cidades”, diz Santo Agostinho. O próprio doutor descreve os dois princípios constitutivos das duas cidades: “São dois os amores, diz ele, em que um é puro, e o outro impuro; um junta, e o outro espalha; um quer o bem comum em vistas da sociedade celeste, e o outro se vale do bem comum e submete-o a seu domínio por orgulho e prevalência; um submete-se a Deus, e o outro Lhe tem inveja; um é tranqüilo, e o outro turbulento; um é pacífico, e o outro sedicioso; um prefere a verdade aos louvores dos palradores, e o outro é ávido de louvores, quaisquer sejam suas fontes; um deseja ao próximo o bem que para si deseja, e o outro deseja submeter o próximo; um governa os homens para o bem do próximo, e o outro para seu proveito; esses dois amores, de que já se imbuíam os anjos, um nos bons, e o outro nos maus, esses dois amores erigiram duas cidades por entre os homens”

Santo Agostinho nos fala sobre as duas cidades: a de Deus e a do homem. Na de Deus fundada sobre o amor a Deus levado ao desprezo de si próprio, e a dos homens, fundada sobre o amor-próprio levado ao desprezo de Deus. Essas cidades foram fundadas no livro do Gênesis por Caim e Abel. Caim criando uma cidade na Terra, e Abel, que não criou nenhuma cidade na Terra mas fundou a celeste. Para Santo Agostinho, a primeira cidade está destinada a sofrer a pena eterna com o Diabo e a segunda a reinar eternamente com Deus . Temos então dois personagens: o cidadão do mundo e o peregrino do céu. Encontramos portanto na cidade terrena duas formas: uma que ostenta sua presença, outra que é com a sua presença, imagem da cidade celeste. A natureza pervertida pelo pecado gera os cidadãos da cidade terrestre, e a graça, que liberta do pecado, gera os cidadãos da cidade celeste. Nesse ponto podemos fazer a união entre os dois maiores teólogos da Cristandade: Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. São Tomás pergunta se sem a graça pode o homem querer e fazer o bem. Ele responde que o pecado não corrompeu totalmente a natureza humana a ponto de privá-la de todo o bem que lhe é natural. Mas para realizar uma obra meritória de caráter sobrenatural é necessário o auxílio da Graça. Santo Agostinho dirá: “sem a Graça ninguém pode absolutamente fazer o bem: seja pensando querendo, amando ou agindo”. Ele também dirá a respeito se a Graça acrescenta algo à alma:” onde disse que a Graça consistia na remissão dos pecados, e a paz na reconciliação com Deus; não se deve entender que a paz e a reconciliação não fazem parte da Graça, no sentido geral do termo mas que, tomado num sentido especial, este termo graça designa a remissão dos pecados”. São Tomás diz que a Graça é maior em uma pessoa do que em outra, mas isso não nos deve deixar tristes ou com sentimentos de inveja, pois nesse ponto há desigualdade. Porque Deus dispensa os dons de sua Graça de diversas maneiras, porque Ele estabeleceu os diversos graus das coisas para a perfeição do universo. O cidadão da cidade Celeste questiona se a graça é a mesma coisa que virtude. Santo Agostinho diz que “a graça que opera, é a fé que opera pelo amor”. Logo a Graça seria uma virtude. Mas Santo Agostinho também diz que “a Graça é anterior à caridade”. Portanto a Graça não é uma virtude. Como resolver essa questão? Aristóteles diz que “ a virtude é uma disposição do que é perfeito, e o perfeito é o que está disposto segundo a natureza”. São Tomás explica que como a luz da razão é distinta das virtudes adquiridas, a luz da Graça é uma participação à natureza divina e é distinta das virtudes infusas que derivam desta luz e lhe são ordenadas. São Tomás não identifica a Graça com a virtude. Em um capítulo da sua obra a cidade de Deus, Santo Agostinho escreve sobre a graça de Deus e seus efeitos, e mostra como pelo pecado de um só homem caímos em tão deplorável miséria, assim como pela Graça de um só Homem que é ao mesmo tempo Deus, chegamos à posse de nosso soberano bem. A vida é uma batalha, mas Santo Agostinho diz ao cidadão da cidade celeste que é melhor a guerra com a esperança da vida eterna do que o cativeiro sem esperança de liberdade.
Santo Agostinho faz uma longa defesa da fé cristã diante dos ataques vindos do paganismo da época, que culpava o cristianismo pela decadência do império romano( tese falsa que seria adotada pelo historiador Edward Gibbon). Santo Agostinho descreve a incrível multidão de deuses que os romanos acreditavam e demonstra a irracionalidade de seus cultos.
O livro é muito rico em discussões, como, por exemplo, o valor do sofrimento no qual quem sabe sofrer reza e agradece a Deus, enquanto o desesperado protesta e blasfema. Santo Agostinho diz que no sofrimento Deus revela a força de sua piedade.
A influência platônica em Santo Agostinho é bem conhecida. Na Cidade de Deus ele confessa que o platonismo é a filosofia que mais se aproxima da fé cristã. Platão estabeleceu que o fim do bem é viver de acordo com a virtude, o que pode conseguir apenas quem conhece e imita a Deus, e que essa é a única fonte de sua felicidade. Santo Agostinho quer que o filósofo tenha amor a Deus, porque gozar de Deus e amar a Deus é ser feliz.
Citando o maravilhoso filósofo neoplatônico Plotino, Santo Agostinho dirá que a morte corporal é uma dádiva que Deus deu aos homens, porque não quis prendê-los para sempre às misérias desta vida. Plotino diz que Deus é o Sol e a alma é a Lua, e que a alma intelectual não reconhece como natureza superior à sua senão a de Deus, autor do mundo e seu autor.
Para os espíritos amolecidos e românticos de algumas pessoas hoje em dia, algumas palavras de Santo Agostinho podem chocar. Diz ele: “quando elevamos nossa alma ao céu, o coração é seu altar; imolamos-lhe vítimas sangrentas quando combatemos até o derramamento de nosso sangue por sua verdade”. Ou seja, é necessário às vezes pegar em armas para defender a fé cristã.

A obra de Santo Agostinho trata da história da salvação desde a Antiguidade até o tempo de Cristo e sua Ressurreição, passando pelos romanos e pelos judeus. O estilo de escrita de Santo Agostinho é muito belo, e citações de passagens suas por outros filósofos desde São Tomás até Wittgenstein ( que baseou suas Investigações Filosóficas em uma passagem das Confissões) e Eric Voegelin são abundantes.
Podemos fazer uma meditação sobre o que diz uma passagem da Cidade de Deus no capítulo XII do sétimo livro. O título desse capítulo é A Júpiter  dá-se também o nome de Pecúnia. Aqui vai o rápido comentário do Santo: ” Em relação a tudo  quanto se contém no céu e na Terra, que é o dinheiro entre as coisas que, com o nome de dinheiro, os homens possuem? Na realidade, foi a avareza que impôs semelhante nome a Júpiter, como o propósito de que a todo aquele que ama o dinheiro não lhe parecesse amar qualquer deus, mas o rei de todos os deuses. Não seria assim se lhe chamássemos de Riqueza. Uma coisa são as riquezas; outra, o dinheiro. Chamamos ricos,sábios, justos e bons a quem carece de dinheiro ou tem pouco.São ricos em virtude que lhes ensinam a contentar-se com o que têm, quando se veem em falta de bens temporais. E damos o nome de pobres aos avaros, sempre anelantes e sempre em necessidade, porque é possível que tenham as maiores riquezas do mundo, mas, por muito grande que seja o seu patrimônio, não podem não estar necessitados (…) em que o rei dos deuses tomou o nome da coisa que  jamais sábio algum desejou? com que facilidade, se salutarmente aprendessem algo da ciência da vida eterna, chamariam Deus ao regedor desse mundo, não por causa do dinheiro, mas por causa da sabedoria, cujo amor purifica da imunda cobiça, ou seja, do amor ao dinheiro!”
Lendo essa passagem vemos como é impossível conciliarmos o Cristianismo tanto com o liberalismo econômico quanto com o socialismo. O Cristianismo pretende nos fazer sábios e ricos espiritualmente, enquanto essas doutrinas modernas visam aumentar o lucro e a cobiça do ser humano, pois nenhuma das duas conseguem pôr freio às ambições de dinheiro e bens que seus seguidores possuem. Não podemos servir a Deus e às riquezas ao mesmo tempo. Então, pode o homem ser feliz mesmo sabendo da sua mortalidade? É possível uma felicidade como à de Aristóteles, que acreditava que o homem pode ser feliz na prática da contemplação? Santo Agostinho responde no capítulo XIV do nono livro: ” Os homens discutem grande problema: Pode o homem ser feliz e mortal? Alguns, considerando-lhe com humanidade a condição, negam ao homem a possibilidade de ser feliz, enquanto viver para morrer. Outros, exaltando-se a si mesmos, atreveram-se a dizer que o sábio, embora mortal, pode alcançar a felicidade. Se é assim, por que não elevá-lo, antes, à categoria de mediador entre os mortais infelizes e os bem-aventurados imortais, se com estes partilham a felicidade e com aqueles a mortalidade? É fora de dúvida que, se felizes, não invejam ninguém, porque nada existe mais miserável que a inveja. E, portanto, velam quanto podem pelos miseráveis mortais, para que consigam a felicidade e possam também, depois da morte, ser imortais em companhia do anjos e dos bem- aventurados  imortais.”
Quem é esse mediador que livrará o homem da infelicidade de ser mortal? Santo Agostinho responde: É Jesus Cristo, ” que é homem, mas também Deus, que por intervenção de bem-aventurada mortalidade conduz os homens da miséria mortal à imortalidade feliz.” É Cristo, diz Agostinho, que nos prepara o caminho, e não outros mediadores que nos façam subir por degraus, porque Deus nos associa à sua beatitude pelo caminho mais curto. O fim do homem será definido por um filósofo cristão posterior a Santo Agostinho, que foi Boécio, o qual disse a respeito da eternidade:”interminabilis vitae tota simul et perfecta possessio” ( a eternidade é a possessão simultânea de uma vida interminável completa e perfeita )

Fontes
http://permanencia.org.br/drupal/node/554
http://felipepimenta.com/2013/03/11/resenha-de-a-cidade-de-deus-de-santo-agostinho/

A Origem do Mal - Agostinho

Eu buscava a origem do mal, mas de modo errôneo, e não via o erro que havia em meu modo de buscá-la. Desfilava diante dos olhos de minha alma toda a criação, tanto o que podemos ver — como a terra, o mar, o ar, as estrelas, as árvores e os animais — como o que não podemos ver — como o firmamento, e todos os anjos e seres espirituais. Estes porém, como se também fossem corpóreos, colocados pela minha imaginação em seus respectivos lugares. Fiz de tua criação uma espécie de massa imensa, diferenciada em diversos gêneros de corpos: uns, corpos verdadeiros, e espíritos, que eu imaginava como corpos.
E eu a imaginava não tão imensa quanto ela era realmente — o que seria impossível — mas quanto me agradava, embora limitada por todos os lados. E a ti, Senhor, como a um ser que a rodeava e penetrava por todas as partes, infinito em todas as direções, como se fosses um mar incomensurável, que tivesse dentro de si uma esponja tão grande quanto possível, limitada, e toda embebida, em todas as suas partes, desse imenso mar.
Assim é que eu concebia a tua criação finita, cheia de ti, infinito, e dizia: “Eis aqui Deus, e eis aqui as coisas que Deus criou; Deus é bom, imenso e infinitamente mais excelente que suas criaturas; e, como é bom, fez boas todas as coisas; e vede como as abraça e penetra! Onde está pois o mal? De onde e por onde conseguiu penetrar no mundo? Qual é a sua raiz e sua semente? Será que não existe? E porque recear e evitarmos o que não existe? E se tememos em vão, o próprio temor já é certamente um mal que atormenta e espicaça sem motivo nosso coração; e tanto mais grave quanto é certo que não há razão para temer. Portanto, ou o mal que tememos existe, ou o próprio temor é o mal. De onde, pois, procede o mal se Deus, que é bom, fez boas todas as coisas? Bem superior a todos os bens, o Bem supremo, criou sem dúvida bens menores do que ele. De onde pois vem o mal? Acaso a matéria de que se serviu para a criação era corrompida e, ao dar-lhe forma e organização, deixou nela algo que não converteu em bem?
E por que isto? Acaso, sendo onipotente, não podia mudá-la, transformá-la toda, para que não restasse nela semente do mal? Enfim, por que se utilizou dessa matéria para criar? Por que sua onipotência não a aniquilou totalmente? Poderia ela existir contra sua vontade? E, se é eterna, porque deixou-a existir por tanto tempo no infinito do passado, resolvendo tão tarde servir-se dela para fazer alguma coisa? Ou, já que quis fazer de súbito alguma coisa, sendo onipotente, não poderia suprimir a matéria, ficando ele só, bem total verdadeiro, sumo e infinito? E, se não era conveniente que, sendo bom, não criasse nem produzisse bem algum, por que não destruiu e aniquilou essa matéria má, criando outra que fosse boa, e com a qual plasmar toda a criação? Porque ele não seria onipotente se não pudesse criar algum bem sem a ajuda dessa matéria que não havia criado.
Tais eram os pensamentos de meu pobre coração, oprimido pelos pungentes temores da morte, e sem ter encontrado a verdade. Contudo, arraigava sempre mais em meu coração a fé de teu Cristo, nosso Senhor e Salvador, professada pela Igreja Católica; fé ainda incerta, certamente, em muitos pontos, e como que flutuando fora das normas da doutrina. Minha alma porém não a abandonava, e cada dia mais se abraçava a ela.

Fonte: Confissões, Santo Agostinho, Editora Martin Claret, páginas 145-147.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Filosofia Medieval - Patrística

 A separação entre judaísmo e  cristianismo leva  à formação de um novo período na história da filosofia.


A filosofia Patrística é o nome dado à filosofia cristã dos primeiros sete séculos, elaborada pelos Pais da Igreja, os primeiros teóricos, e consiste na elaboração doutrinal das verdades de fé do Cristianismo e na sua defesa contra os ataques dos "pagãos" e contra as heresias.
Durante os séculos I ao IX, a influência dos primeiros padres cristãos na cultura Ocidental foi das mais intensas. Inicialmente, lutam para disseminar o cristianismo enquanto religião, explicando seus dogmas fundamentais à população em geral. Nesse momento, muitas vezes, recorrem à filosofia, como forma de converter os pagãos, acostumados às reflexões racionais. O conjunto de pensamentos desses padres, um tanto heterogêneo, recebeu o nome de Patrística.
Quando o Cristianismo, para defender-se de ataques polêmicos, teve de esclarecer os próprios pressupostos, apresentou-se como a expressão terminada da verdade que a filosofia grega havia buscado, mas não tinha sido capaz de encontrar plenamente, enquanto a Verdade mesma não tinha ainda se manifestado aos homens, ou seja, enquanto o próprio Deus não havia ainda encarnado.
De um lado, se procura interpretar o Cristianismo mediante conceitos tomados da filosofia grega, do outro reporta-se ao significado que esta última dá ao Cristianismo. Os primeiros pensadores cristãos, ao mesmo tempo em que se valeram, também se debateram com os filósofos, quer com Platão e com Aristóteles, quer, sobretudo, com os estóicos e com os epicureus. Sem perder de vista os ideais da doutrina cristã, eles buscaram encontrar, frente à filosofia e aos filósofos, o lugar apropriado da reflexão filosófica e do pensar cristão.

Apesar do propósito comum, havia duas   tendências contrárias: a dos padres da Igreja Ocidental, que   combatiam a religião pagã e a dos clérigos do Oriente, que   propunham uma harmonização entre o pensamento grego e a religião   cristã.

 Foram vários autores que se ocuparam dessa tarefa: Justino, Tertuliano, Clemente de Alexandria, Orígenes, Gregório de Nazianzo, Basílio de Cesareia, Gregório de Nissa.

A Patrística divide-se geralmente em três períodos:


1º- Até o ano 200 - Defesa do Cristianismo contra seus adversários (padres apologistas, como São Justino Mártir.

2º - até o ano 450 época dos primeiros grandes sistemas de filosofia cristã (Santo Agostinho, o expoente máximo da patrística).

3º - até o século VIII reelaboram-se as doutrinas já formuladas e de cunho original (Boécio).


Esta divisão da Literatura Patrística em três períodos é geralmente feita, mais didaticamente, da seguinte forma:


Período Ante-Niceno - corresponde ao período anterior ao Concílio Ecumênico de Nicéia (324 d.C). Geralmente compreende os escritos surgidos entre o século I e início do IV século.

Período Niceno - corresponde ao período entre os anos anteriores até alguns imediatamente posteriores ao Concílio Ecumênico de Nicéia (324 d.C). Geralmente compreende os escritos surgidos entre o início do IV século até o final deste.

Período Pós-Niceno - corresponde ao período compreendido entre os V e VIII séculos.

 O mais proeminente filósofo da Patrística sem dúvida é Agostinho de Hipona.


Fontes
urs.bira.nom.br
www.portaleducacao.com.br
rrsantana.blogspot.com.br
filosofiadodireito.info

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Pedro Abelardo



Pedro Abelardo nasceu em Pallet em 1079 na Bretanha, região situada na França, e morreu em 21 de abril de 1142 em Chalon-sur-Saône.
Foi um teólogo e filósofo escolástico, mestre em dialética, tendo feito grandes contribuições para a lógica. Ficou famoso seu relacionamento com a aluna Heloísa. Uma triste história de amor .

Enquanto professor de Notre-Dame, conheceu Heloísa em 1117, quando ela tinha dezesseis anos.   A relação tornou-se amorosa, e acabaram tendo um filho chamado Astrolábio.
Ao serem descobertos pelo tio da jovem, revelam sobre a gravidez, e o tio obriga com que eles se casem, e ambos não querem por causa da carreira do filósofo. Pedro então envia sua amada para se tornar freira num convento.
Os dois então passaram a fazer algo que foi o mais marcante na história de amor deles. Escreveu "História de Minhas Calamidades", uma autobiografia e sua principal obra, onde também trocava correspondências com Heloísa, a soma chega a 113 cartas de amor anônimas entre eles.

Ele abandona a Basílica de Saint-Denis por discordar da identificação que havia entre São Denis com Pseudo-Dionísio.
Em 1222 isto ocorre, virando eremita por um tempo, depois voltando a lecionar como professor em Paris, fundando o Oratório do Paracleto. Por volta de 1120 aprofunda-se em teologia . Se opôs a personalidades  como Bernardo de Claraval. Com seus estudos em teologia, escreve "Tratado Sobre a Unidade e a Trindade Divina ou Teologia do Bem Supremo", onde aborda que Deus está fora de todas que conhecemos e podemos vir a conhecer, explicando sobre a Santíssima Trindade com analogia gramatical.

Em 1136 volta a ensinar na escola de Sainte-Geneviève. As acusações que recebe do Concílio de Sens em 1140 por acusações de heresia por parte de Guilherme de Saint-Thierry e Bernardo de Claraval fazem Abelardo recorrer à Roma. Entretanto, quando se direcionava para Roma para se defender contra as acusações de ser herege, padece de uma doença, o que o faz ter que se abrigar na Abadia de Cluny, onde é acolhido por um amigo. Esse amigo era Pedro, o Venerável; que chegou a uma reconciliação formal entre Abelardo e São Bernardo, onde pediu que o filósofo permanecesse no convento de Cluny devido sua doença. Passou meses por lá, até sua morte em 21 de abril de 1142.

Pensamento

 São três as áreas de pesquisa de Abelardo: Lógica, Teologia e Ética.
A filosofia de Pedro Abelardo se encontra diretamente direcionada para a teologia e a linguagem lógica. O fundamento de sua filosofia é a apologia ao movimento escolástico e a oposição do realismo sobre os universais apresentado por Platão.
Discordava da abordagem realista de Platão sobre os universais, que era o consenso comum entre o meio filosófico da Idade Média. Um termo como exemplo um carvalho seriam apenas palavras sem denotação real com os carvalhos existentes. Os universais não passariam de conceitos inteligíveis criados pelo intelecto, da mente as deriva das coisas que guardam alguma semelhança. Prestava especial atenção à linguagem, suscetível a múltiplas interpretações e empregos de sentenças gramaticais e linguísticas.
Em sua obra "Dialética", disserta justamente sobre a dialética em si, virando uma ferramenta didática para o ensino do trivium (gramática, lógica e retórica).Valoriza a dialética como não só uma forma habilidosa de discurso, mas como o mais eficaz meio de distinguir o conhecimento verdadeiro do falso. Contribui para a educação escolástica com a obra "Pró e Contra", onde interpreta as Escrituras sob a ótica da razão e os dogmas cristãos.

A metodologia da lógica de Abelardo é de análise, estuda a questão filosófica que em discussão e examinava as partes que a constituem, procurando os pontos de incoerência e contradição entre suas premissas e a ideia principal, onde assim, por fim, a razão prevaleça sobre a opinião.

Em ética afirmou que o pecado não é a ação física, e sim o impulso mental de pecar, sendo o pecado a intenção de pecar e não o ato.
Quanto à Deus, concluiu a impossibilidade de se definir sua essência, por ser transcendente, estando além do que conhecemos ou podemos vir a conhecer.
No que diz respeito à Dialética, Abelardo a distingue da mera habilidade discursiva, defende que cultivar a Dialética corresponde a cultivar a própria razão. A razão dialética, segundo Abelardo, é, concomitantemente, razão crítica.

O objetivo de Abelardo era tornar os enunciados cristãos acessíveis à razão humana. Abelardo distingue o intelligere do comprehendere, a Dialética serve ao intelligere, que é obra da razão e da fé conjuntamente, já o comprehendere é fruto exclusivo da graça de Deus.
A ética de Abelardo foi trabalhada na obra Ethica seu scito te ipsum, de acordo com Beonio-Brocchiere, tal tratado pode ser considerado como o mais filosófico tratado de Abelardo. Para ele a consciência é o centro da vida moral, dizendo que a vontade ou o desejo por algo contrário à Moral não podem ser considerados pecado, mas sim a falta de oposição/ resistência em praticá-los.

Abelardo distingue os desejos e as inclinações humanas das decisões da consciência. Assim, fica claro que para Abelardo a intenção é determinante da vida moral. A intenção interioriza a vida moral, não a subordinando à heteronímia moral. Ainda, a intenção nos coloca no centro das nossas paixões e desejos, não somos culpados por termos desejos e paixões, mas segundo a orientação das nossas respostas a tais.

Finalmente, pelo intentio, descobre-se que é impossível se ater à exterioridade da ação, pois uma ação só adquire valor moral a partir da sua motivação e dos seus objetivos. Ouçamo-lo: "Os homens julgam aquilo que lhes aparece, não tanto aquilo que lhe está oculto, sem levar em conta tanto a delituosidade da culpa como o efeito da ação. Somente Deus, que não olha para as ações que fazemos, avalia com base na verdade as razões de nossa intenção e examina a culpa com juízo perfeito."

Em Abelardo, não temos um subjetivismo moral, embora seja a consciência moral de um homem que determina se a sua ação é moral ou não. Não temos um subjetivismo, pois a consciência humana deve orientar-se em conformidade às Leis Divinas, a cujos imperativos o homem deve adequar-se. A moralidade de um ato é sim interior, mas os princípios, os valores pelos quais o homem e a mulher devem se orientar são dados por Deus. Assim, confirma-se que em Abelardo a razão e a consciência estão em função das verdades reveladas.

A frase "a dúvida nos leva à pesquisa e através dessa conhecemos a verdade" é um dos princípios de Abelardo que direciona tanto seus pensamentos filosóficos como teológicos. O filósofo parte dessa idéia inicial para formar e fundamentar o seu raciocínio crítico. A dúvida é onde começa o caminho para a pesquisa, é uma frequente interrogação que nos leva a um exame mais aprofundado das questões que nos interessam. Através da dúvida o filósofo Abelardo emprega um caráter científico às suas investigações.

Frases:
- A chave para encontrarmos a sabedoria é a interrogação permanente e regular.
- Escrever é um mal perigoso e contagioso.
- Não podemos acreditar em nada se antes não o entendermos.
- É ridículo pregar aos outros aquilo que nem nós nem os outros entendemos.
- Deus faz aquilo que quer, mas como só quer aquilo que é bom, Deus só faz o bem.


www.filosofia.com.br

filosofiacienciaevida.uol.com.br

www.e-biografias.net